29/10/2025

Que se cansem e vão embora

Depois de 126 anos, decidi ler Dom Casmurro.

Tempos atrás, numa conversa com minhas amigas, chegamos à conclusão de como o inglês é uma língua pobre. Em português, temos palavras específicas pra todos os vieses. Então, ler Machado de Assis era o meu plano pra tentar fugir dos termos inglesados que ando falando por aí.

E sim, é tudo isso que dizem.

Achei que ia ser mais uma leitura tipo Morro dos Ventos Uivantes, que eu me forço a terminar só porque detesto deixar livro por ler.

Dia desses eu estava — aqui mesmo, inclusive — falando sobre as vozes na minha cabeça. E como é impossível saber como funcionam as vozes na cabeça das outras pessoas, já achei que ia acabar adicionando “esquizofrenia” à minha coleção de diagnósticos. Mas aí li isso aqui hoje:


“Não podendo rejeitar de mim aqueles quadros, recorri a um tratado entre a minha consciência e a minha imaginação. As visões feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarnações dos vícios, e por isso mesmo contempláveis, como o melhor modo de temperar o caráter e aguerri-lo para os combates ásperos da vida. Não formulei isto por palavras, nem foi preciso; o contrato fez-se tacitamente, com alguma repugnância, mas fez-se. E por alguns dias, era eu mesmo que evocava as visões para fortalecer-me, e não as rejeitava, senão quando elas mesmas, de cansadas, se iam embora.”

 

Se Machado de Assis tinha vozes — que ele, bonitamente, chamava de consciência e imaginação — e elas conversavam sobre os mesmos assuntos que as minhas, quem sou eu pra me dizer esquizofrênica?

Então, mais tranquila, sigo aqui evocando as visões, esperando que elas se cansem e vão embora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário